04 - Mãe
Comentando ontem com minha irmã e minhas filhas sobre o aniversário de minha mãe - hoje ela completaria 83 anos de idade - fui cobrada pela primogênita pra contar mais de como era a avó delas. Então, vamos lá.
A memória da gente é uma coisa meio louca, nos prega peças, cria histórias, realmente não é muito de confiança. Mas algumas coisas dela eu lembro com exatidão, como o cheiro que a mãe tinha.
Minha mãe tinha cheiro de chimarrão (mate, erva-mate). O hálito dela era esse... Ela adorava a bebida e bebia chá até com leite, na falta de café. O abraço dela tinha esse cheiro gostoso, e acho que por isso não consigo largar desta bebida também. Não é apenas tradição de gaúchos. Pra mim vai além, pra mim traz conforto, como um abraço e, apesar de ser uma bebida normalmente consumida entre mais de uma pessoa, me habituei a tomar sozinha também. É um elo com o passado, com as lembranças mais antigas que guardo da infância, mas também uma ligação de afeto, de aconchego.
Eu acordava de manhã e já ficava esperando pela mamadeira. Era uma só, de vidro, dividida entre meu irmão mais velho e eu. E pela hierarquia, ele ganhava primeiro. Esperava ele terminar, o que anunciava com um sonoro "mãããe". E sabia que a próxima seria eu. Lá vinha nossa mãe com o meu leitinho docinho e morninho. Junto com ela, o cheiro de chimarrão.
Minha mãe exerceu várias atividades profissionais na vida, nem sempre muito fáceis. Uma delas era vendedora de tecidos, de porta em porta. Aproveitava para vender perfumes de catálogo nestas mesmas visitas. As clientes eram fiéis, do tempo que se comprava o tecido e mandava costurar a roupa - o que ela, aliás, também fazia, além de tricô e crochê. As sacolas de mostruário de tecido eram pesadas e às vezes ela nos levava junto para acompanhar um dia de trabalho. Não era um trabalho fácil ou leve. Era calor, frio, chuva ou sol, lá ia minha mãe visitar suas clientes com uma bolsa pesada em cada mão. Tinha tantas varizes nas pernas que não era fácil de olhar, provavelmente por carregar tanto peso somado aos fatores genéticos e nenhum tempo se cuidando.
Lembro que ela fazia piada de tudo, ria muito, uma característica que filha mais velha e eu compartilhamos. Fazia piada com a própria morte e dizia que só morreria quando a igreja que ela frequentasse tivesse sino. Detalhe: até hoje a igreja não tem sino! E lá se vão 33 anos da morte dela. Também adorava conversar com as pessoas, fazer amigos, falava com qualquer um sem dificuldade, o que causava muito ciúme no meu pai. Se engajava em trabalhos na igreja, voluntária no pouco tempo que nem tinha.
Outra atividade que ela exerceu foi a fotografia. Algumas destas imagens que ilustram estes posts são dela. Num período antes de eu nascer e um pouco depois, era sua atividade principal, que voltou a exercer nos últimos anos de vida. Fotos 3x4 para documentos, fotos de estúdio para bebês, casamentos (tenho muitas de casamento de pessoas que não faço ideia quem são, hehehe), primeira comunhão, registros de eventos especiais (como o ano que nevou na nossa cidade), desfiles da semana da pátria... Se não fosse por isso, é bem possível que não tivessemos tantas fotografias nossas da infância, porque era muito caro tirar fotografia naquela época. As de casamento era exibidas numa vitrine, que dava pra área externa do estúdio e as pessoas paravam para ver. Era meio que uma forma de ver a vida dos outros sem usar as redes sociais, he he he.
Outra atividade que ela adorava fazer era visitar nossos avós. Minha mãe foi abandonada pela mãe biológica (tentou afogá-la no rio, até onde sei) e seu tio a salvou e a adotou. Então, meus avós (quem conhecemos como tal) eram na verdade tios da minha mãe. A nossa avó tinha uma filha, que não era filha do meu avô. Um pouco mais nova que minha mãe, teve paralisia infantil e ficou paralítica como consequência. Meus avós tinham uma pequena propriedade numa área rural, entre 11 e 12 km da cidade, de onde tiravam o sustento. Tinham vaquinha de leite, galinhas e ovos, muitas frutas, um laguinho, uma nascente de água, cachorros e muitos gatos! Quando tínhamos carro, meu pai nos levava algumas vezes. Outras, minha mãe conseguia que alguma amiga a levasse. Em troca, traziam o carro lotado de frutas, ovos, geleias, carne, leite, enfim, tudo que era produzido naquele pequeno pedaço de chão. Já fizemos este trajeto de bicicleta e à pé... estrada de chão, cascalho, muita terra vermelha. Nada disso intimidava nossa mãe. E pra gente era a mais pura diversão. Aliás, este trajeto de 11 ou 12 km meu avô fez de bicicleta até morrer.
Lembro que cada coisa que ela queria, no que dependia dela, fazia acontecer. Trabalhava duro pra isso, era muito conhecida e querida na cidade e muita gente a ajudava, lhe dava trabalho, compravam dela. E apesar de todo sofrimento da vida pessoal, das manchas roxas na pele, nada tirava dela a alegria. Sim, vi ela chorar também. E nada é mais desesperador do que ver sua mãe chorando. Mas na lembrança, na memória ficou o bom humor que ela irradiava. E é esta uma das características que mais lembro dos anos que vivi ao lado dela!

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