06 - O Natal e as Cigarras
Que o Natal é uma época mágica pras crianças ninguém duvida. Até para aquelas mais pobrezinhas, que aguardam ansiosamente que o Papai Noel lembre delas. Na minha infância não era diferente. Nossa mãe se esmerava na escolha da árvore (que era uma pequena araucária) e na sua decoração, na montagem do presépio. Naquele tempo, as bolinhas que enfeitavam a árvore eram de vidro e, fininhas, quebravam muito facilmente. Uma pena eu não ter guardado algumas, tão lindas! Uma delas era especialmente cuidada pois em seu interior tinha um pequeno presépio esculpido. Estava na árvore todos os anos, num ponto de destaque, facilmente localizado e muito apreciado por mim. Lembro do uso de cordões de luzes coloridas só na minha adolescência. Até então, tinha uma espécie de prendedor de metal (parecido com prendedor de roupas) que na parte superior tinha um espaço para colocar uma vela pequena - era possível comprar caixinhas com dez ou doze velinhas coloridas que espalhávamos pelos galhos do pinheiro. Não aconteceu nenhum acidente relacionado às velas que me lembre, até porque elas eram acesas apenas no dia 24/12, véspera de Natal, e apagadas quando íamos dormir. Era lindo admirar o brilho das chamas nas bolinhas de vidro, no festão... E o presépio? Ah, esse era uma encenação da chegada de João e Maria à estrebaria, o menino Jesus na mangedoura só no dia 25 e, depois do Natal, até o dia 06 de janeiro, a aproximação dos três reis magos - cada dia eles eram movimentados para mais perto da pequena estrebaria. Nosso presépio tinha rochas que minha mãe modelava usando papel pardo, tinha musgo, plantinhas, areia e até um laguinho com patinhos, feito com um caco de espelho. Recentemente quando marido e eu estivemos na Itália, coincidentemente no Natal, vi presépios como o que minha mãe construía. Era um cenário lindo, perfeito, que atiçava a nossa imaginação. E sempre ajudávamos a construir e decorar.
Comecei a achar o Natal uma época não muito boa depois de adulta. Principalmente porque acontece no verão e não me agrada nada esse calorão todo que a gente passa. Entetanto, quando eu era criança, não me incomodava muito com o calor. A nossa pequena cidade era invadida por muitas cigarras assim que a primavera começava a mostrar sinais de verão. E isso sim causava preocupação. Por algum motivo eu tinha medo daqueles bichos voadores com patinhas duras parecidas com espinhos e de aspecto não muito diferente de uma barata. E encontrava com elas sempre que íamos aos ensaios do programa de Natal da igreja onde fui batizada. Não só com elas, também com os besouros chifrudos brigando nas vitrines iluminadas das lojas.
Entretanto era o canto das cigarras que me fazia lembrar que o Natal estava chegando, que as férias não demorariam, anunciavam os dias calorentos nos quais nem os cachorros vadios latiam, tamanho o calor! Eram elas as mensageiras tanto das brincadeiras no poerento pátio, debaixo do enorme abacateiro, como dos ensaios natalinos, do calor, banhos de rio, subir em árvores, brincar até tarde, picolé, limonada... Era ao som do canto das cigarras que admirávamos vitrines coloridas, com inúmeras possibilidades de presentes que talvez pudéssemos receber. Era ao som da cigarra que as pessoas passeavam no entardecer de dezembro, caminhando pelas ruas, apreciando uma brisa mais fresca. E era ao som das cigarras que meu Natal era embalado.
Esta memória segue fixa e a cada novo ano, ao primeiro sinal das cigarras, vem as memórias daquele tempo, daqueles rituais, da fantasia, da magia, da expectativa pelos presentes! Sinto não ter continuado parte destes ritos e transmitido pra vocês, minhas filhas. Achava, na época que vocês eram pequenas, que aquela magia não tinha mais nada a ver comigo. Talvez, comigo não tivesse mesmo. Mas podia ter transportado vocês nesses cenários e nesses sonhos infantis tão gostosos. Podia ter mantido aquela pequena e bela tradição que tanto lembra minha mãe, lembra da felicidade dela, do talento em montar as cenas do Menino Jesus chegando ao mundo.
E nada disso em si tem a ver com religião - digo, a lembrança dos rituais - mas muito mais com uma pequeno hábito que virou costume nosso e que alegrava tanto naqueles dias, compensando toda tristeza do restante do ano.
Ainda bem que as cigarras ainda existem, ainda cantam na mesma época, ainda trazem boas lembranças. E perdoem-me não ter ensinado pra vocês uma pequena tradição, que vocês poderiam repetir para lembrar de bons momentos nossos! Amo vocês!
Ainda bem que as cigarras ainda existem, ainda cantam na mesma época, ainda trazem boas lembranças. E perdoem-me não ter ensinado pra vocês uma pequena tradição, que vocês poderiam repetir para lembrar de bons momentos nossos! Amo vocês!
Fontes das imagens:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Cigarra
http://www.biologia.seed.pr.gov.br/modules/galeria/detalhe.php?foto=665&evento=4
https://www.gazetadopovo.com.br/haus/paisagismo-jardinagem/arvore-de-natal-natural-dicas-cuidados-pinheiro/
https://pt.wikipedia.org/wiki/Cigarra
http://www.biologia.seed.pr.gov.br/modules/galeria/detalhe.php?foto=665&evento=4
https://www.gazetadopovo.com.br/haus/paisagismo-jardinagem/arvore-de-natal-natural-dicas-cuidados-pinheiro/
https://noticias.bol.uol.com.br/ultimas-noticias/imoveis-e-decoracao/2016/12/22/antes-dos-produtos-chineses-decoracao-de-natal-era-artesanal-e-improvisada.htm





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